29.12.09

O maior receio iraniano

Quando li, pensei "olha só!" (ctrl C + ctrl V daqui)

O maior temor de Teerã
Selig S. Harrison - Herald Tribune / Tradução: Deborah Weinberg

A maior ameaça aos aiatolás e generais que controlam o Irã não vem do movimento de oposição democrático, que luta para reformar a República Islâmica, e sim de grupos separatistas cada vez mais agressivos das regiões de minorias étnicas árabes, curdas, balúchis e azeris que coletivamente compõem 44% da população iraniana dominada pelos persas.

Unidos, o movimento de reforma democrática e os insurgentes étnicos poderiam minar seriamente a República. Contudo, o movimento de reforma, como a maior parte do establishment clerical, militar e empresarial é dominado por uma elite persa arraigada que até agora se recusou a atender às demandas das minorias.
O que as minorias querem é um aumento de gastos para o desenvolvimento econômico nas regiões não persas; maior partilha dos lucros do petróleo e outros recursos naturais em suas áreas; uso livre de idiomas diferentes do persa na educação e na política e o fim da perseguição política. Alguns líderes das minorias acreditam que esses objetivos podem ser alcançados com uma autonomia regional sob a Constituição existente, mas a maior parte quer reconstituir o Irã como uma confederação mais flexível ou declarar independência.
Os EUA devem dar ajuda em dinheiro e armas para os insurgentes étnicos?
Na Casa Branca do governo Bush, travou-se um debate entre os defensores da "mudança de regime" em Teerã, que favoreciam uma ação secreta de larga escala para quebrar o país, e o Departamento de Estado que argumentava que todo apoio aberto às minorias complicaria as negociações para um acordo nuclear com os persas dominantes.
O resultado foi um meio termo, uma ação dissimulada limitada e executada por terceiros: no caso dos balúchis, as medidas foram tomadas por meio do Diretório de Inteligência Interserviços do Paquistão, ou ISI; no caso dos curdos, pela CIA em cooperação com o Mossad de Israel.
Meu conhecimento do papel da ISI se baseia em fontes paquistanesas de primeira mão, incluindo líderes balúchis. As evidências do papel da CIA em fornecer ajuda com armas e treinamento ao Pejak, principal grupo rebelde curdo no Irã, foram divulgadas por três jornalistas americanos: Jon Lee Anderson e Seymour Hersh, do "New Yorker", e Borzou Daragahi do "Los Angeles Times" que entrevistaram diversos líderes do grupo.
O líder-supremo do Irã, aiatolá Ali Khamenei, falando na cidade curda de Bijar no dia 12 de maio, acusou o governo Obama de não reverter a política de Bush. "Infelizmente, dinheiro, armas e organização estão sendo fornecidos por americanos diretamente pelas fronteiras ocidentais para combater o sistema da República Islâmica", declarou. "Os americanos estão envolvidos em uma conspiração."
O Mossad tem contratos antigos com grupos curdos no Irã e no Iraque, estabelecidos quando os EUA e Israel queriam desestabilizar as áreas curdas do Iraque de Saddam Hussein. Agora, porém, os EUA querem um Iraque unido no qual curdos, xiitas e sunitas cooperem. O Irã também quer um Iraque unido porque teme que a cooperação entre seus próprios curdos e os iraquianos e turcos criem um Curdistão independente. Assim, a ajuda ao Pejak prejudicaria o futuro de uma cooperação Irã-EUA em Bagdá além de complicar as negociações nucleares.
Tanto os balúchis quanto os curdos são muçulmanos sunitas. Eles estão combatendo a cruel repressão religiosa xiita além da discriminação cultural e econômica. Em contraste, é xiita a maior das minorias, a dos azeris que falam turco, e o próprio aiatolá Khamenei é azeri.
Sua seleção como líder supremo foi em parte um gesto aos azeris para cimentar sua lealdade ao Irã e impedir uma campanha secreta da mesma etnia no Azerbaijão para anexá-los. Os azeris estão em posição econômica melhor do que as outras minorias, mas acham que os persas têm preconceitos contra eles. Em 2006, conflitos prolongados emergiram por dias após um jornal em Teerã publicar uma charge com uma barata que falava azeri.
A ameaça separatista de maior potencial no Irã são os árabes xiitas da província sudoeste do Khuzistão, pois produz 80% da renda de petróleo do país. Até agora, as facções separatistas árabes não criaram uma milícia, mas atacam periodicamente as instalações de segurança do governo, explodem usinas e disseminam propaganda em árabe em canais de TV por satélite de localidades diferentes fora do Irã.
Os confrontos militares mais sérios entre a Guarda Revolucionária e grupos separatistas ocorreram na fronteira curda, onde o Irã bombardeou repetidamente esconderijos do grupo Pejak em setembro de 2007. Também no Baluchistão, os guardas sofrem fortes baixas em repetidos confrontos com milícias do movimento Jundullah, que opera a partir de campos do outro lado da fronteira, nas áreas balúchis do Paquistão e do Afeganistão.
Comparados aos protestos em massa nas ruas de Teerã e Qum, os tumultos não coordenados que foram gerados por insurgentes étnicos podem parecer algo lateral. Mas se os insurgentes étnicos se unirem e se a oposição democrática forjar uma frente unida das minorias, as possibilidades de reformarem ou derrubarem a República Islâmica, agora fracas, seriam fortalecidas.
Por enquanto, o governo Obama deve avançar com o máximo de cuidado ao lidar com esta questão delicada, sabendo que o apoio ao separatismo e o engajamento com o atual regime são completamente incompatíveis.
(Selig S. Harrison é diretor do programa para Ásia do Centro de Política Internacional e autor de "In Afghanistan's Shadow", ou "Na Sombra do Afeganistão").

4.11.09

Velinhas de aniversário

Há 80 anos e seis dias, Wall Street era um caos. Ações das maiores empresas norte-americanas despecando por minuto, bilhões de dólares evaporados, ricos de repente falidos. Alguns se jogavam pela janela, mas o modo mais usado para o suicídio foi o asfixiamento com gás. O prefeito de NY, Jimmy Walker, pedia ao cinemas que passassem filmes otimistas, mas não adiantou muito. Era a crise de 1929, que simplesmente abalaria o mundo todo.

Antecedentes
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Antes da 1 Guerra Mundial, EUA era o maior devedor; depois, passou a ser o maior credor de dinheiro.
Altos índices de produção e consumo - 1/6 dos americanos tinham carro (na Europa era um carro para 84 pessoas).
Entre 1889 e 1927, subiu em 780% produção de aço e 562% a de máquinas.
O crescente salário dos operários era mais do dobro dos da Europa.
Especulação de ações e lucro fácil - impulsionado pelo bull market ("feira de touros"), a corrida por ações.
Em 1928, a ação da General Electric subiu de 129 para 396 dólares.
Detalhe cômico: na febre, centenas de pessoas compraram ações da Seabord Air em 29, crentes que era uma companhia aérea - era na verdade um empresa ferroviária.
Também havia a corrida imobiliária para a Flórida, mais quente e com vantagens na compra: pagava-se apenas 10% do valor e o resto depois com os lucros dos anos seguintes, já que em pouco tempos o imóvel valia cem vezes mais. O problema era quando o terreno era um pântano ou não existia mesmo, mas mesmo assim a população na Flórida duplicou.

No resto do mundo,em particular a Europa, a situação era bem diferente: saía muito dinheiro desses países, para o pagamento dos empréstimos da Primeira Guerra. Então o Reichsbank da Alemanha aumentava os juros, para tentar estancar a enxurrada que saía, mas isso elevava o valor do dinheiro, o que dificultava empréstimos produtivos para investimentos internos. Naada bem.

Crise

O ano mais negro da história econômica dos EUA. Resultado da especulação que havia ofuscado os bancos com os juros que os sustentavam, do dinheiro fácil que não tinha bases sólidas e a febre incontrolável por mais. Assim, os bancos, receosos, aumentavam os juros, dificultando a realização de empréstimos, o que diminuía o número de ações negociadas e fazia seus valores caírem.

De início, os grandes bancos compraram papéis a preços artificialmente altos, para dar ânimo aos investidores (incluindo os de fundos populares). Na real, isso já tinha acontecido em março de 29, mas em outubro ficou insustentável. Na quinta-feira negra os pequenos clientes afundaram. Daí muitos ainda achavam que a mão invisível da economia livraria os superbanqueiros de todo o mal, mas eis que na terça-feira negra, os grandes investidores levaram um singelo "susto".

Depois

Um mês depois da dita cuja, as ações da Bolsa de NY tinham caído 40%.
Em 1932, 40 bancos faliam por dia, as fábricas em baixíssima operação (a produção das siderúrgicas caíra 88%), 1/4 do país estava desempregado (o que no ano seguinte representaria 13,5 milhões de pessoas). O salário médio do trabalhador industrial estava reduzido pela metade e um milhão de pessoas vagava de cidade em cidade procurando o que fazer. Aí Al Capone fazia a festa e distribuía sopão para elevar sua popularidade. Além disso, era a maior taxa de divórcios da história.

No campo
A menor capacidade de consumo das cidades fazia cair o preço dos alimentos, fazendo com que bilhões de dólares dos fazendeiros sumissem e os caponeses ficassem ainda mais pobres. Apesar disso, toneladas de cereais apodreciam no campo enquanto várias famílias sofriam com a fome. Tinha gente até queimando sementes, já que eram mais baratas que combustível. Para piorar, três secas, em 30, 34 e 36. Por isso vários fazendeiros, os chamados okies, rumavam para o Meio Oeste, para fugir da terrível crise.

Pobres
Antes mesmo da crise, mas no ano em questão, 90% da riqueza do país estava concentrada em 13% da população e o número de milionários era seis vezes maior que os 7 mil de 1914, sendo que um quinto do povo vivia com menos de mil dólares ao ano (teoricamente o decente seriam dois). Cortiços abundavam nas cidades, não havia previdência social (a Alemanha já tinha em 1891) nem salário-desemprego (já na Inglaterra...).

Mundo
Passaram a não importar tanto, já que não tinham tanto dólar para tal - sem contar as medidas protecionistas que muitos adotaram para frear ainda mais a importação. Consequentemente, o comércio mundial caiu pela metade. Além disso, os que emprestavam dinheiro quiseram tudo de volta e na hora, pegando os outros de surpresa. Daí caía ainda mais a produção industrial e aumentava o número de desempregados - nos anos 30, 40% do mundo!
Dentro dos países, a situação era triste: a Inglaterra cortou gastos públicos (ou seja, além de todos terem que pagar indiretamente pela crise surgida em outro país, ainda tinham que sofrer com as medidas de combate).

Mas quem mais rodou foi a Alemanha, que já tinha que pagar as indenizações impostas depois da Primeira Guerra e que em 1923 tinha perdido a área do Reno-Ruhr (mais industrializada) para a França e Bélgica. E mesmo sem a crise, os alemães sofriam com a ironia do ciclo do dinheiro: pagavam indenizações para aqueles dois países, que pediam empréstimos aos EUA para sua reconstrução, e esse por fim emprestava com altos juros para a Alemanha, que tentava pagar o que devia. Esse clima de depressão fazia cair a a confiança e apoio popular ao governo de esquerda da então República de Weimar (instaurada depois da 1 GM) e crescer o radicalismo, como os comunistas e um pequeno e singelo grupo de nacional socialistas. A Alemanha pede em 31 moratória (adiamento) de um ano da dívida, mas nunca mais paga, pois em 33 torna-se chanceler o líder daquele pequeno grupo (o do bigodinho, lembra?), que se destacou devido a conflitos entre os outros, que disputavam o poder. E se dá bem no seu cargo, tanto é que em um ano depois que assumiu, o desemprego caiu de 6 para 3 milhões de alemães. Não havia uma hora melhor para Hitler tomar as rédeas do movimento nazista.

Ninguém tinha percebido a crise vindo?

Actually, sim. O Fed (Banco Central dos EUA) havia publicado meses antes um documento em que alertava para os problemas que o crédito por empréstimo especulativo exagerado poderia acarretar. E a Associação Nacional de Indústrias já dizia que a produção no país estava de 15 a 30% mais alta que a capacidade de consumo(incluindo mercado externo) e que 40% das fábricas estava funcionando com prejuízo. Havia também uns indicadores nada positivos: no fim de 1928, o desemprego havia aumentado e afetava já 4 milhões de norte-americanos e em setembro de 29 a produção de aço havia decrescido de 9% em relação ao ano anterior.

Mas quem iria ouvir esses dados deprês se tava tudo uma maravilha? Pois é, poucos. Charles Chaplin, o magnata Bernard Bausch e Al Capone pularam fora. O Kuhn, Loeb e Co., segundo maior banco de investimentos, estava liquidando empréstimos especulativos a bônus em NY, algo que trazia menos lucro, mas mais segurança.

Quem deveria ter prestado mais atenção era o presidente da época que tomara posse no ano em questão, Herbert Hoover, e o seu
antecessor, Calvin Coolidge, ambos do partido republicano. Mas, claro, estavam embalado nos dogmas do liberalismo econômico, que pregava a não intervenção do Estado. Assim, a única medida expressiva de Hoover foi a injeção de 175 milhões para obras públicas, uma soma irrisória comparada às dezenas de bilhões de dólares perdidos. E ele não foi só lembrado como quem seguiu essa prática fracassada do capitalismo, mas também pelas favelas de órfãos da crise, as chamadas Hoovervilles.

A salvação

"A única coisa a temer é o prórpio medo" - Franklin Delano Roosevelt

Esse carinha aí em cima, vulgo FDR, simples e literalmente salvou a pátria. Tinha sido derrotado para vice-presidente em 1920, mas oito anos depois conseguiu o governo do Estado de NY. Lá investiu em obras públicas com ampliação do emprego, estímulo econômico, aumento de serviços públicos, melhorou as condições de trabalho e fez um plano de auxílio estatal para idosos e deficientes. Se aí ele já parece o cara, saca só:

Ao receber o presente grego da crise em 1933, o trigésimo segundo presidente americano, democrata, implantou o New Deal (quem deu as bases teóricas foi Lorde Keynes, anticomunista e crítico do ultraliberalismo), em que:
- reativava a atividade econômica privada com estímulos do Estado (intervencionaismo estatal), planejamento e política de investimentos públicos;
- detinha autoridade sobre bancos privados (para eles não fazerem a festa);
- pedia pelo rádio para que os cidadãos não sacassem suas econimias dos bancos (só pioraria a situação);
- inaugurava os projetos alfabéticos (instituições estatais).

Dentre elas, estavam a Adm. Nac. de Recuperação, que destinava 4 bilhões para obras públicas e empregos; a Adm. de Ajuste na Agricultura, que que estimulava os fazendeiros a produzir menos (era uma crise de superprodução, né?) e mata porcos para dar aos pobres; e a Corporação de Construção Civil, que empregava jovens para trabalhar contra a erosão do solo e incêndios em florestas.

Também havia a Lei de Reconstrução Industrial, que suspendia inicialmente as normas antitruste para reativar a produção industrial (estabelecia cotas de produção para diminuir a concorrência) e o Ato de Segurança Social, que era o começo de um seguro-velhice para mais de 65 anos.

Além disso, definiu um limite de garantia oficial para depósitos bancários (= mais tranquilidade e menos corrida aosn bancos), abriu linhas de crédito para pagar hipotecas, financiava peças de teatro e acabava com a proibição de fabricação e consumo de álcool (a Lei Seca deles, que tinha enriquecido Al Capone) [tem mais um negócio sobre padrão-ouro que nunca entendi, se alguém souber...].

Os do contra

Olha que coisa, como ele incentivava obras públicas, construiu a represa e a hidrelétrica de Tennessee. Assim, ao ter mais oferta de energia elétrica, barateava-a também, o que irritava bambambans como J.P.Morgan, que tinha o controle de um quarto da produção de hidrelétricas até então.
E Henry Ford também não gostou e foi contra o plano. Na verdade, os ricos em geral desconfiavam do governo e os altos déficits que esses gastos gerariam - quem pagaria esses investimentos? Dinheiro seria desviado deles? Pois é.

Palmas
Mesmo com todo o New Deal, a dívida interna dos EUA ainda era 2/3 da UK, o salário médio nas cidades subiu 65%, aumentou a renda do milho no campo e favelas/cortiços foram praticamente eliminados (reduzindo assim crime e gastos com médicos e policiais).

Reeleição

Mesmo com o partido divido - uns diziam que ele era socialista - conseguiu se reeleger.

Segunda fase

Em 1938, inaugurou a Lei do Trabalho Justo (definindo salário mínimo e jornada máxima), proibiu o trabalho de menores de 16 anos (a não ser no campo) . Revive as leis antitruste, que não eram mais tão necessárias, e concedeu mais liberdade sindical, e os sindicatos aumentaram em número (antes era bem reprimidos, contrariando o liberalismo que adotava e praticado na Europa).

Apesar disso, teve gente que não gostou daquelas concessões trabalhistas - o setor de fumo boicotou o salário mínimo ao fechar fábricas - e da posição antitruste. Na Suprema Corte FDR enfrentou oposição, já que havia muito republicano, que acabaram por declarar a AAA inconstitucional e vencer as eleições legislativas de 38.

Daí FDR rebatia com uma parábola, ao dizer que num história um homem havia salvado o outro de uma enchente, mas depois o que teve sua vida salva reclamava do outro não ter salvado também sua cartola.


Terceira Fase

De 36 a 40, foi o chamado Estado de bem estar social (welfare state), com leis trabalhistas, pensões, novos juízes e tal.

Mundo

A crise tirou os EUA do pódio de salvador mundial depois da Guerra e abalou relações econômicas e diplomáticas.
Cada país por sí, cada um adotava medidas diferentes - reformistas (sem mexer na estrutura) ou revolucionários (mudança total) - mas em geral vindos do Estado. Algumas divergências imprediam progressos na recuperação econômica (a França sofreu os efeitos da crise até a invasão alemã em 1940).

FDR - ao contrário do outro Roosevelt, o Theodore (que tinha forçado a independência da COlômbia em 1904 para se apossar do Canal do Panamá - adotou uma política de boa vizinhança. Por isso nada fez quando Lázaro Cárdenas nacionalizou em 30 as compoanhias de exploração de petróleo.
Na Alemanha, Hitler fez seu próprio "New Deal": buscava a reconstrução econômica, mas conectada ao reerguimento político e militar (suspendeu o pagamento de indenização, aumentou os transportes, casas populares, saneamento e indústria militar).

Por fim, a contradição

Foi justo a Segunda Guerra Mundial, com raízes na profunda crise de 29 e o modo como cada país lidou com ela, que garantiu aos EUA sua volta e de vez a potência mundial. E, mesmo com todo o acontecimento, 80 anos depois, muito daquilo se repetiria - ou alguém acha que as semelhanças são meras coincidências?

23.10.09

O berço no chifre dentro do inferno


Pense em um etíope.
Infeliz e provavelmente, você pensou em uma criança abominavelmente raquítica, com barriga inchada e o ambiente desolador de savana. O pior de tudo é que você tem razão, considerando a metade dos 83 milhões de habitantes que sofrem de subnutrição crônica. Ou ainda as quase 80 mil crianças com menos de 5 anos com desnutrição aguda. E por fim, os 6,2 milhões de etíopes em situação de risco para os quais o ministro da Agricultura apelou ontem por uma ajuda alimentar internacional e emergencial de 159 mil toneladas, no valor de US$ 121 milhões .

Fatos


A Etiópia, o país dos "caras queimadas" (os europeus antigos que falavam o grego chamavam a todos os países onde moravam negros de "Etiópia"), situa-se no Chifre da África, ao lado da Somália, Eritréia, Sudão e Quênia. Foi lá onde o café surgiu, e onde pesquisadores recentemente encontraram o mais antigo ancestral humano, o Ardi, 1 milhão de anos mais velho que Lucy, a dita vovó de todos nós (conclusão: em vez de sugerir que os seres humanos evoluíram de uma criatura similar ao chimpanzé, a nova descoberta fornece evidências de que os chimpanzés e os humanos evoluíram de um ancestral comum, há muito tempo. Cada espécie, porém, tomou caminhos distintos na linha evolutiva.)


O país tem uns nomes estranhos, tipo a capital Addis Ababa ou a lingua oficial amárico. E uns números tristes, como o IDH de 0,414, a esperança de vida menor que 60 anos, a mortalidade infantil de 92 mortes por 1000 nascimentos ou a alfabetização de 42%. Na época do neocolonialismo do séc. XX, foi invadida pela Itália em 1936 e libertou-se 5 anos depois; e agora é uma república federal parlamentarista.


Problemas


A origem da crise na Etiópia vai além da seca (inclusive foi por causa de uma prolongada que foi realizada uma reunião de doação e o pedido acima foi feito). É em parte resultado das políticas desenvolvidas com o objetivo de manter os agricultores no campo, que são prejudicados pois:

1. As terras para a agricultura na Etiópia pertencem ao Estado e não podem ser vendidas, então as terras são passadas de geração para geração, divididas e sub-divididas diversas vezes.

2. Muitas dessas terras são tão pequenas, e o solo tão superutilizado, que elas não conseguem produzir o suficiente para alimentar as famílias que as cultivam, mesmo quando chove o suficiente.

3.O governo se recusa a permitir que as terras sejam vendidas para evitar um fluxo de agricultores para as cidades - já que apenas 17% dos 80 milhões de etíopes vivem em áreas urbanas - e assim evitar uma grande taxa de desemprego urbano e a instabilidade social.

Outros fatores são:
- fechamento da fronteira com a Eritreia, o que prejudica o fluxo normal de comércio;

- o rápido crescimento populacional prejudica a capacidade de alimentar sua população (que já é a segunda maior da África, atrás apenas da Nigéria);

- conflitos em várias áreas reduziram a produção agrícola.


Solução (?)


É necessário que os países enfoquem no auxílio a comunidades de modo a prepará-los para lidar com desastres, ao invés de enviar ajuda emergencial. Ao menos é isso que a Oxfam (Comitê de Oxford de Combate à Fome) disse em seu relatório, que marca o 25º ano da crise humanitária no país."... enviar auxílio em comida sem dúvida salva vidas, mas a predominância dessa abordagem fracassa em oferecer soluções de longo prazo que romperiam com essas crises cíclicas e crônicas"

Faz todo o sentido, afinal, as estratégias de longo prazo recebem menos que 1% do auxílio internacional
Os Estados Unidos já mandaram US$ 3,2 bilhões à Etiópia desde 1991. No entanto, segundo a Oxfam, 94% desse total chegou em forma de mantimentos, diminuindo investimento na produção local.

História


1973. 250 mil pessoas morrem de fome. O imperador Hailé Selassié, temendo desestimular o turismo, não recorre à ajuda internacional. Em 1974, em meio ao caos económico e a acusações de corrupção, Hailé Selassié é derrubado e sucedido três anos mais tarde pelo coronel Mengistu.


O novo governo, apoiado pelos soviéticos, enfrenta guerrilhas nas províncias de Eritréia e Tigre. No leste, explode também uma guerra com a Somália, que reivindica a província de Ogaden. Milhares de pessoas são forçadas a se retirar. Vêm para estes acampamentos juntar-se às vítimas da seca endémica causada pelo desflorestamento e pela erosão do solo. Embora seja possível a perfuração de poços de água, os etíopes ainda não possuem os meios para isso. As fontes subterrâneas de água continuam inexploradas pelos fazendeiros mal equipados.


O transporte de alimento é um problema ainda maior. Um DC-3 de 42 anos é a ligação vital entre os refugiados e Adis Abeba, a capital. Shimelis Adougna é uma das pessoas responsáveis pelo socorro de emergência na Etiópia. Ele diz: "Estamos a viver uma situação de emergência muito séria na Etiópia. Das quatorze províncias, nove foram atingidas pela seca. Cerca de cinco milhões de pessoas estão expostas ao perigo da fome. Nossos esforços são feitos no sentido de atrair a atenção internacional e assistência. A resposta não tem correspondido às nossas expectativas e não chega nem de perto de suprir as necessidades..."


A guerra é o maior obstáculo para resolver o problema da fome. Para combater os guerrilheiros, o governo gasta mais de um milhão e meio de dólares comprando armas dos soviéticos. Tal procedimento não ajuda a encorajar a assistência do Ocidente, que teme ver o seu dinheiro convertido em munição. Por outro lado, os guerrilheiros de Tigre e Eritréia destróem grandes quantidades de alimentos enviados pela comunidade internacional porque, como dizem, os estoques foram transportados com a ajuda do governo.


O coronel Mengistu tenta resolver o problema deportando seiscentas mil famílias das regiões montanhosas do norte para o sul, cerca de três milhões de pessoas. Milhares delas morrem no caminho; outras não conseguem se adaptar ao novo clima e modo de vida.
O regime arcaico de Hailé Selassié durou 44 anos. O governo de Mengistu chega ao fim em 1991, após quatorze anos de ditadura. Ainda que a paz se aproxime da Etiópia, será difícil recuperar o tempo perdido em uma das mais longas guerras da África moderna. Durante anos, o desenvolvimento foi relegado ao segundo plano em favor da luta pelo poder político. Nesse período, o deserto continua o seu avanço inexorável, com milhões de etíopes vivendo um inferno na Terra.

Quem diria que o país de origem de cada Homo Sapiens que habita o planeta hoje é raiz de tantos problemas, muitos dos quais apenas jogado lá, descaradamente.

G1, Estadão, Portal das Curiosidades

20.10.09

Com a foice na mão

Para quem pensava que a crise afetava só indústrias, Bolsas e PIBs, atenção! Um estudo norteamericano provou, sem melosamente apelar para o direito à vida, por que agora, mais do que nunca, é necessário abolir a pena de morte.

Se isso é desconcertante, os números-argumento do estudo são ainda mais: o governo dos EUA poderia economizar - pasmem - US$ 25 milhões por criminoso executado! O Centro de Informação da Pena de Morte chegou a essa conclusão em relatório publicado hoje e defende que a pena não só é um desperdício, como também não é garantia de redução da criminalidade.

Quanto ao dinheiro, o valor ultrapassaria o acima, chegando até 100 milhões, ao se considerar os vários anos de processo na justiça e os atuais 3297 presos na fila de espera. A Califórnia, por exemplo, gasta US$137 milhões por ano com isso e não realizou uma execução em quase quatro anos. E US$ 250 milhões do condado de West Orange já foram ralo abaixo sem trazer resultados positivos.

Apesar disso, 65% dos norteamericanos apoiam a sentença para punir os criminosos mais perigosos; tanto é que em 35 dos 50 Estados a pena é legalizada.

Por outro lado, o índice caiu bastante desde 1976, quando era de 80%, e apenas 12 Estados fazem uso frequente da lei. Onze outros reconsideraram-na este ano, principalmente por causa do - tcharam! - alto custo da implementação. O Novo México deu tchau à pena em março, o Colorado chegou perto e New Hampshire a suspendeu por um mês para economizar. Por fim, a taxa de assassinatos caiu em Nova Jersey após a abolição ano retrasado.

*A pena de morte foi restabelecida pela Corte Suprema dos EUA em 1976 e desde então foram executados 1.176 condenados, 441 deles no estado do Texas.

Detalhe: quem dera se essa pesquisa tivesse sido exposta ano passado, quando o número de presos executados foi o dobro do em 2007: 2390, além de outros 8864 condenadas em 52 países. E adivinhem onde foi a maioria: na China (mas isso já merece outro post).

HA! E no meio dessa história toda, o acusado de estupro e assassinato Romell Broom realizou a façanha de, 25 anos após o crime, conseguir sobreviver a 18 injeções letais! Isso porque os médicos não conseguiam achar a veia, daí pega o outro braço, tenta a perna, e depois de 29 minutos desistem. Agora o problema é o que fazer com o cara, que ou vai de novo para a execução, ou segue para a prisão perpétua ou, por esforço dos advogados, é libertado - afinal, a Constituição foi violada, uma vez que a morte, que era para ser rápida e indolor, foi transformada em uma sessão de tortura (sem contar que a Suprema Corte tinha concluído recentemente, por sete votos a dois, que a injeção letal é uma forma humana de se matar um criminoso). Broom não foi único a sobreviver: em 1946, um assassino de 17 anos resistiu a um choque de 2,5 mil volts na cadeira elétrica - e só foi morto um ano depois.

G1, Último Segundo, Fantástico

4.10.09

Malcheirosa e curiosa

Atire a primeira pedra quem alguma vez olhou detidamente a nota de um real que recebe de troco, ou teve a curiosidade de saber que aquela mulher com coroa de louros é Marianne, o símbolo da República e criada na Revolução Francesa, que só se tornou estampa das nossas cédulas porque em 1994, depois de 5 moedas e 10 anos, o estoque de homenageados já tinha se esgotado.

Enfim, não que eu passe o dia com a lupa examinado uma nota malcheirosa, tenho o costume de colecionar as de outros países. Qual não foi, portanto, a minha surpresa quando recebi uma da Malásia, país onde nasci e para onde meu pai viajou a trabalho. Bem grande e gordo na nota de 1 ringgit estava:

US GENERAL GEORGE WASHINGTON IS ALIVE

"Que estranho", pensei. Virei a nota e, olhe só:

IN YEAR 2056 THE U.S. MILITARY VAULT AT 725 - 23 RD. ST. WASH. DC OPENS

Pois é, não é todo dia que se encontra uma coisa dessas. De início, pensei na "vault", um tipo de cofre, e lembrei daqueles programas de tv em que as pessoas juntam várias coisas da sua época para serem abertas no futuro. Será?

Então pensei: Just Google it! E o resultado, meus amigos, está aqui: (isto é, numa pesquisa porca e rápida).

A minha pergunta, então, fica: WHAT THE HELL uma coisa dessas tava numa nota da de menor valor de um país do outro lado do mundo que quase ninguém sabe onde é?

23.9.09

Lei desidratada

É realmente frustrante, mas por motivos de força maior, não tive a capacidade de parafrasear notícias e chegar a algo personalizado, mas de qualquer modo, reproduzo aqui um dos editoriais da Folha de hoje (que por acaso está inteirinha disponível online!), que muito me interessou:

Lei desidratada

A "LEI SECA" , como ficou conhecida a de número 11.705/2008, que incluiu no Código de Trânsito Brasileiro um limite quantitativo rigoroso para o nível de álcool no sangue de motoristas, constitui um bom exemplo de que o endurecimento da legislação nem sempre produz os resultados pretendidos. Paradoxalmente, a fixação do teto de 6 decigramas de álcool por litro de sangue -algo como dois copos de cerveja- parece estar contribuindo para a impunidade dos condutores flagrados em embriaguez ao volante.
O objetivo era induzir o nível de álcool no sangue a zero. Pelo menos de início, a nova regra conseguiu reprimir esse comportamento de risco, que segundo estatísticas está envolvido em cerca de 40% a 60% dos acidentes de trânsito com mortes. A fiscalização aumentou, e motoristas temerosos das penalidades draconianas -prisão em flagrante e seis meses a três anos de detenção- passaram a pensar duas vezes antes de beber e dirigir.
Ocorre que, ao fixar o limite numérico, a lei tornou o crime, tipificado no artigo 306 do código, dependente da comprovação da embriaguez por meio de teste químico de presença de álcool no sangue. Como ninguém está obrigado a produzir provas contra si próprio, é direito do autuado recusar-se a realizar o teste do bafômetro. Levantamento recente indicou que, nos casos que chegam aos tribunais, 80% dos refratários ao teste terminam absolvidos por falta de provas.Colhe-se, como era previsível, o efeito oposto do pretendido.
À medida que o esforço de fiscalização se esvai, o temor da punição arrefece. Em paralelo, difunde-se que basta escapar do teste para arcar só com as punições administrativas (multa e suspensão da carteira por um ano). Mais uma lei deixa de "pegar".Constatado o paradoxo, debate-se agora na Câmara um novo endurecimento da lei. Pela proposta, a recusa ao teste do bafômetro passaria a ser indício suficiente para a prisão. Cogita-se corrigir o erro anterior com outro: punir o cidadão por exercer o direito, consagrado na jurisprudência, de não se incriminar.

Será verdade?

20.9.09

Retorno

No Rio de Janeiro, mihares de bicicletas se juntaram no "Um dia sem carros", um evento que infelizmente não ocorre em São Paulo (ok, temos as ciclovias que ligam alguns parques da cidade, mas apenas das 9h ao meio dia de domingos). Enfim, com sorte a manifestação dos 4,5 mil cariocas acima fará ainda mais sentido depois de algumas medidas do governo, a ver:

- mais imediata e localizada:
Para combater a superlotação em escadas rolantes do metrô de São Paulo, as próximas serão entre 15% e 50% mais velozes que as atuais. Na verdade já está valendo na estação Alto do Ipiranga, estará incorporada para a linha 2 - verde (paulista) e no futuro atingirá toda a malha. Pode parecer insignificante, mas a mudança de 0,5 ou 0,65 m/s para o,75 m/s fará diferença na retirada dos passageiros e será um pequeno bônus para se usar o transporte público.

- mais demorada e ampla:
o Brasil seguirá a tendência mundial de dar novo fôlego ao setor ferroviário. Nos próximos 5 anos, o país usará R$ 71 bilhões (saindo dos cofres federais, estaduais e privados) em projetos de metrô, trens urbanos, ferrovias de carga e veículos leves sobre trilhos (VLT). Em especial, R$ 25 bilhões vão para a expansão do transporte de carga, incluindo a conclusão das Ferrovias Norte-Sul, Nova Transnordestina, Litorânea Sul e Oeste-Leste, além da expansão de Carajás, Vitória-Minas e Ferronorte. Detalhe: o valor total é 270% maior que os recursos aplicados entre 2004 e 2008!

É uma tentativa de voltar aos anos áureos da década de 50, quando a malha ferroviária chegou a 37 mil km. De lá para cá, ao invés de crescer, a extensão diminuiu (devido ao foco rodoviário, por exemplo) e hoje são apenas 30 mil km. Portanto, se os empreendimentos saírem do papel, o número subiria para 35 mil em 2015 e atingiria 52 mil até 2030, o ideal para cobrir o país.

A situação atual do transporte ferroviário brasileiro é triste: além de pouco extensas, as linhas não tem bitolas padronizadas, por terem sido construídas em períodos diferentes e consequentemente é difícil a integração das vias; estão mal distribuídas - 52% só no Sudeste do total, apenas 2450 km são eletrificados; a única linha de passageiros com serviços diários de longa distância e conforto é a Belo Horizonte - Vitória, sem contar os exclusivamente turísticos no Sul; e nem se comparam os mapas de ferrovias nossos com os do EUA ou Argentina.

Nos últimos meses, para amenizar os efeitos da crise financeira e criar novos postos de trabalho, países como Estados Unidos, China, Índia e algumas nações da Europa lançaram pacotes bilionários para ampliar o transporte sobre trilhos, de carga ou de passageiros.

Em paralelo também entram aí a grandes diferenças nesses países, como a existência de pedágio urbano - mais aí já é outra história.

Enfim, será que os ciclistas lá em cima vão ter algo em retorno?

Etc: Uol, G1