Imagine que o Obama morresse hoje. A esperança de milhares escorrendo pelo ralo, seu líder carismático nunca mais. Agora transporte a imagem para um velhinho de 74, olhos puxados, vencedor de um prêmio Nobel da Paz e comumente chamado de Dalai Lama (ou ainda Tenzin Gyatso). Pois é, lá no topo do mundo a preocupação é constante: que acontecerá com o Tibete se seu principal emblema for embora?
História
Mas primeiro, entender o que se sucede lá. Meio que desde o século 3, quando o budismo chegou, aquela área era tinha autonomia, com suas próprias etnias, costumes, etc e com boas relações diplomáticas com a China. Mas apareceu uma grande ameaça: Gêngis Khan, o guerreiro mongol que já havia dominado grande parte da Ásia central. Aí o Tibete pediu ajuda aos antigos aliados da China. Em troca de proteção, concordou em tornar o Tibete uma região administrativa sob a jurisdição do governo chinês, ou seja, a incorporação do país. É por essas e outras que, para Pequim, o Tibete é parte da China desde o século 13 e ponto.
Essa situação só foi interrompida em 1912, quando a revolução republicana chinesa pôs fim ao império. Na ocasião, os tibetanos aproveitaram a confusão para expulsar os chineses e declararam a independência. Até a China de Mao Tsé Tung invadir a área em 1950, com uma força militar muito maior. Tenzin Gyatso tinha 15 anos e foi forçado a assinar, em 1951, o acordo que abria mão da soberania do país desde que a China respeitasse os direitos e a liberdade de culto. Isso não aconteceu e os tibetanos se rebelaram em março de 1959. Lhasa, a sede da revolta, foi rapidamente arrasada, e o dalai lama novamente teve de fugir. Dessa vez para Dharamsala, na Índia, onde ele e seus apoiadores fundaram o governo tibetano no exílio.
Tanto o Dalai Lama viajou e pregou que hoje há centro tibetanos no mundo inteiro e ainda ganhou o Nobel da Paz em 89. Também foi o ano em que a causa da independência do Tibete ficou conhecida no Ocidente, após o massacre de manifestantes pelo Exército chinês na praça da Paz Celestial. Ele já fundou 53 assentamentos agrícolas de larga escala para acolher os refugiados, idealizou um sistema educacional autônomo – existem hoje mais de 80 escolas tibetanas na Índia e no Nepal – para oferecer às crianças pleno conhecimento de sua língua, história, religião e cultura, além de já ter elaborado uma Constituição democrática para um Tibete livre.Os exilados são em 130 mil; cerca de 6 milhões de tibetanos vivem no Tibete e na China.

* E por que mesmo a China quer tanto o Tibete?
1. Interesse geográfico: o Tibete faz fronteira com a Índia e a proximidade ajuda a China a ficar de olho no vizinho, que vira-e-mexe ameaça invadir a região.
2. Interesse econômico: o Tibete é um pedaço de terra rico em recursos naturais, como madeira e metais - ouro, zinco, cobre, urânio, manganês (reservas suficientes para até 20% necessidade da China)
3. Interesse político: ao garantir a unidade territorial com mão de ferro, os chineses procuram evitar o colapso que desmembrou a ex-União Soviética, repartida em 14 repúblicas com o fim do socialismo.
2. Interesse econômico: o Tibete é um pedaço de terra rico em recursos naturais, como madeira e metais - ouro, zinco, cobre, urânio, manganês (reservas suficientes para até 20% necessidade da China)
3. Interesse político: ao garantir a unidade territorial com mão de ferro, os chineses procuram evitar o colapso que desmembrou a ex-União Soviética, repartida em 14 repúblicas com o fim do socialismo.
Influência chinesa: em Lhasa, capital da região, menos de 25% dos 300.000 habitantes são tibetanos. Os chineses ocupam praticamente todos os cargos públicos e os empregos mais importantes, como professores, bancários e policiais. Estima-se que 1 milhão de tibetanos já tenham morrido nas mãos do Exército chinês.
No fim do ano passado, o governo chinês mais uma vez rejeitou a proposta do Dalai Lama de uma reaproximação que renderia maior autonomia para o Tibete. Nos últimos dias, tropas chinesas invadiram milhares de casas e detiveram pelo menos 81 ativistas antes do 50º aniversário, em março, da revolta fracassada que forçou o Dalai Lama a se exilar na Índia. A China parece inclinada a aumentar o aperto e esperar pelo idoso líder, insistindo, de maneira um pouco improvável para um governo oficialmente ateísta, que tem o direito legal de designar a próxima reencarnação do Dalai Lama.
Os chineses insistem que seu exército libertou os tibetanos da escravidão teocrática e que o Tibete é inseparável da China. Em 1995, o governo chinês rejeitou a escolha do Dalai Lama de um menino de seis anos como reencarnação do Panchen Lama, um líder espiritual no SECT dominante do Budismo Tibetano, e então indicou outro. A criança escolhida pelo Dalai Lama desapareceu sob custódia chinesa. O que é estranho, considerando que os comunistas chineses não acreditam em vidas passadas ou futuras e que é ilegal propagar religião na China.
Sucessão
Mas enfim, com os conflitos com a China ou não, a necessidade de ter um sucessor é presente. Mais do que declarar independência territorial, a prioridade do Dalai Lama atualmente é cuidar para que sua civilizacão seja mantida, sua liberdade de culta e a língua tibetana. Mas se este poderoso símbolo unificador morre e seu sucessor é jovem, inexperiente e sem influência, os tibetanos perderiam a atenção no exterior e poderiam se tornar apenas mais um dos povos sem terra do mundo, perdidos à sombra de uma superpotência em ascensão.
Outro ponto: geralmente, quando o Dalai Lama morre, a corte real indica um regente, que governa até que a próxima reencarnação tenha idade suficiente (o dalai lama seguinte é escolhido por tradições religiosas, com sinas e mensagens divinas). Ao longo dos séculos, alguns regentes gostaram muito de seu poder e alguns Dalai Lamas faleceram prematuramente, para não dizer suspeitosamente. O sentido da regência como um período de risco ainda persiste.
Por isso é possível que haja uma mudança nos planos. Tenzin disse que está refletindo sobre reinventar a prática histórica e cultural e escolher sua reencarnação antes de sua morte, o melhor para salvaguardar seu povo exilado. Ou ainda outra opção: talvez as quatro seitas que constituem o Budismo Tibetano possam formar uma versão tibetana do Colégio Católico Romano de Cardeais e escolher um sucessor. Talvez ele volte como uma menina, ou como um não-tibetano. Desde que ele volte, tão ou mais importante quanto o atual Dalai, para o bem do teto do mundo.
E você, que tem a dizer sobre isso?


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