Pode parecer uma posição extremista essa minha; afinal o filme é de ação, estrela Tom Hanks, é gravado em Roma e no Vaticano, explora temas como a anti-matéria e o debate Igreja x Ciência e surpreende quanto aos fatos - enfim, um bom filme à primeira vista.
Mas nada comparado ao livro. Claro, é sempre a mesma história, "o livro é bem melhor", já que nunca é possível reproduzir fielmente uma história escrita, longa e intricada a duas horas e meia no cinema. Mas desta vez, a adaptação do livro mandou pro ar qualquer noção de bom senso e indigna o best-seller que, para mim, supera em anos-luz o outro sucesso de Dan Brown, Código da Vinci, que vendeu mais 70 milhões de exemplares.
Por que estaria eu tão revoltada? Por uma razão: sem motivo (aparente) algum, os produtores do filme resolveram mudar quase por completo a história. Só para não lotar aqui de spoilers (que me arruinam quando leio sem atenção), dou exemplos gerais: pessoas que no livro morrem, sobrevivem no filme, outros personagens são inventados sem necessidade no long-metragem, pontos centrais são ignorados e claro, o fim é totalmente diferente.
Não bastava arrebentar o universo que Brown de um modo tão inteligente criou, o filme perde o foco no ponto mais essencial do livro. A intensa discussão entre o papel da Igreja e da Ciência como respostas para nossas questões metafísicas (do tipo "como surgiu o mundo?" ou "Deus existe?") é total e rudemente rebaixada. Ok, é claro que é explorada a certo nível, mas você sai do cinema sem nenhuma lição de moral (sim, ela existe no livro) e sem ter expandido seus argumentos sobre o tema. Eu mesma, enquanto lia, não acreditava na capacidade do autor de mostrar vários pontos de vista, revelar histórias de fundo impressionantes e conciliar tudo isso a uma busca contra o tempo para salvar o Vaticano de uma explosão de antimatéria e desvendar os enigmas dos Illuminati. É, acima de tudo, de tirar o fôlego.
Quem dera não tivesse sido como no caso de Ensaio sobre a cegueira, em que, na minha opinião, o filme foi tão impactante quanto a belíssima obra de José Saramago. Fernando Meirelles conseguiu captar a essência e de modo interessantíssimo transportou uma história de cegos a um meio visual. Até mesmo Desventuras em Série, agora num plano mais infanto-juvenil, que no filme junta os primeiros três livros, não exagera tanto na invenção da parte dos produtores do filme. Podemos ainda mencionar Harry Potter, na medida em que os produtores (pra mim nem tão satisfatoriamente) adaptaram os livros aos filmes, e foram "obrigados" a cortar partes e remodelar outras. Mas faz parte dessa indústria e nunca é possível agradar a todos. O xis da questão, de por que o caso Anjos e Demônios se sobrepõe no absurdo, é que foi simplesmente desnecessário. Custava manter a fantástica trama do autor, que te prende às páginas e é uma surpresa atrás da outra?
Mais perguntas permanecem no ar. Como Dan Brown "permitiu" isso? Quero dizer, ele certamente vendeu os direitos do livro, e certamente sabia que haveria tantas modificações (aposto que estavam nas palavras miúdas), mas ainda assim: até tu, Brown? E outra: será que vai acontecer o mesmo que o novo livro dele "The Lost Symbol", previsão em inglês para setembro, que será a continuação do Código?
Quanto a isso, não posso estar segura. Mas quanto aos fatos, não posso evitar um sorriso torto: A estreia de «Anjos e Demónios» nos EUA, o sucessor de «O Código Da Vinci», ficou abaixo das expectativas, apesar de ter registado 48 milhões de dólares no passado fim-de-semana, um valor pouco mais alto que o arrecadado por «Star Trek» na sua segunda semana em cartaz. O filme, que reúne novamente Tom Hanks e o realizador Ron Howard, facturou 104,3 milhões de dólares a nível mundial, o 10º maior valor obtido por uma estreia fora do mercado norte- americano, mas ficou longe dos 60 milhões de dólares esperados pelos estúdios Sony nos EUA.
Resumo da ópera: vale MUITO a pena ler o livro e vale também ver o filme. Afinal, não é todo mundo que pensa que nem eu. E formar opiniões, quem dera que quase tudo, é essencial. Para quem leu, algo interessante, no site oficial do autor. E ainda entrevista da Globo com Tom Hanks:
E você, que tem a dizer sobre isso?

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