Ontem foi realizada a décima eleição do Irã, quando 46,2 milhões saíram para mostrar sua voz. Ou não, pois, segundo o candidato que perdeu, foi fraudulenta. E aí, o ex-presidente vai continuar por mais 4 anos e o que isso representará para o país e o resto do mundo?Quem eram os candidatos? (ver em sentido horário)
Mahmud Ahmadinejad
O mesmo ultraconservador de meia-idade que recusou a visita ao Brasil semanas atrás é o símbolo do extremismo iraniano para o Ocidente. Após se tornar presidente teve que deixar um modesto apartamento herdado do pai há 40 anos num bairro popular de Teerã, cidade que governou entre 2003 e 2005. Seu único carro particular é um Peugeot 504 branco de 1977, e a renda declarada à Receita se resume aos US$ 250 mensais recebidos como professor universitário licenciado --ele abriu mão do salário a que teria direito como presidente. Entre seus maiores orgulhos estão a carreira de engenheiro civil a serviço
dos aiatolás e o fato de ter nascido numa aldeia pobre. Além disso é um populista com amplo apoio do povo [enquanto é apoiado por militares e ala pobre, enriqueceu outros segmentos da população - é só ver as concessionárias de carros de alto preço e as lojas de luxo que abriram durante seu mandato). Contrapondo essa imagem angelical, estão os fatos de ter, em abril, acusado Israel de promover genocídio e limpeza étnica contra palestinos, dois dias após classificar o Estado hebraico de racista e promover protestos em uma conferência da ONU, além de, claro, ter negado o holocausto. Os dados do país também não são lá aquela beleza: há um desemprego de 12,5% na PEA (sem contar o empregos redundantes e o subemprego) dos 66 milhões de habitantes, inflação de 25% (paga-se agora 60 mil riais o quilo de carne, em vez dos 40 mil que pagava-se há um ano) e renda per capita de US$ 3.540 (2008). Segundo o Fundo Monetário Internacional, o crescimento previsto para 2009 será de 3,2%, contra 4,5% em 2008 e quase 8% em 2007 (precisaria criar entre 700 mil e 800 mil empregos por ano para os jovens que chegam ao mercado de trabalho, o que exige um crescimento entre 6% e 8% - a solução seria incentivar os investimentos estrangeiros, algo que ele tornou muito difícil.Há também os que o acusam de não ter utilizado bem da posição de 4' produtor e exportador mundial de petróleo, além de ser aquele espinho em relação ao enriquecimento de urânio e desenvolvimento da tecnologia nuclear (a Agência Internacional de Energia Atômica relatou que, até o final de maio, o Irã havia construído e instalado 7.200 centrífugas - mecanismos para enriquecimento de urânio - e estava aumentando seu estoque de combustível nuclear mais rápido do que nunca).
Mir Houssein Mousavi
Um conservador moderado de quase 70 anos que quer mudar a imagem extremista do país, mas defende o programa nuclear - que, segundo ele, seria usado apenas para questões energéticas. Como é partidário da liberalização, tem apoio dos jovens e parte das mulheres. Ademais, é arquiteto e defensor das liberdades individuais e fez campanha ao lado da mulher, o que nunca aconteceu antes no país islâmico. EUA, embora com relações cortadas a 30 anos, considera que o diálogo entre os dois países seria mais fácil com a vitória dele.
Mohsen Rezai
Economista conservador de mais de 54 anos favorável à abertura de relações com o Ocidente e que promete reorganizar o país.Mehdi Karroubi
Reformista de mais de 70 anos que prega o diálogo com o Ocidente e quer liberalizar a sociedade e economia.
* Consideremos que outros 475 tiveram as candidaturas rejeitadas pelo Conselho dos Guardiães da Constituição, que decide quem pode ou não concorrer.
Campanhas
Ahmadinejad era considerado imbatível até o início da campanha (apoiado pela zona rural, setores conservadores e os que votam em bloco, como o Exército e a Guarda Revolucionária), mas uma grande mobilização em torno de Mousavi (jovens, mulheres e povo urbano) embaralhou o processo de sucessão.
Os dois principais opositores fizeram uma campanha agressiva, com acusações mútuas de manipulação de dados. Em um inédito debate, assistido por mais de 40 milhões de pessoas, Mousavi disse que o presidente mentia sobre os dados da economia para esconder a inflação resultante do que chamou de incompetência para administrar o país. Ahmadinejad reagiu e disse que os aliados do opositor -como o ex-presidente Akbar Rafsanjani- enriqueceram por meio da corrupção.
As eleições de fato
As constantes alfinetadas aparentemente de nada serviram, já que Mahmoud foi reeleito com 62,6% dos votos, contra 33,8% de Mousavi, 1,7% de Mohsen Rezai, e 0,9% de Mehdi Karroubi, de acordo com os resultados oficiais divulgados pelo Ministério do Interior do Irã.
Quem foi contra
Logo após a divulgação dos números finais começaram as manifestações. Os confrontos no centro de Teerã foram os mais sérios distúrbios na capital desde o protesto de estudantes contrários ao regime em 1999 e demonstraram um descontentamento com a eleição que pode gerar ainda mais violência. Partidários do reformista Mousavi, muitos usando o símbolo verde da campanha dele, lotaram as ruas para protestar, jogar pedras e incendiar carros e gritar "o governo mente para o povo" ou "Ahmadinejad, vergonha para você. Deixe o governo em paz". Houve confronto com a polícia antimotim, que agiu com violência para conter os manifestantes, usando bastões e gás lacrimogênio. À noite, os protestos se intensificaram depois de um discurso do presidente reeleito, com latas de lixo incendiadas e usadas para bloquear as ruas.
Enquanto aconteciam as revoltas, a associação de clérigos islâmicos da qual faz parte o ex-presidente reformista iraniano Mohammad Khatami (1997-2005) pediu a anulação da votação e a realização de uma nova eleição.
O Comitê para Proteger o Voto do Povo, criado pelos três candidatos de oposição, disse que não aceitará os resultados, alegando fraudes e irregularidades, falta de cédulas, o fato de que milhões de eleitores não puderam votar e que os fiscais de seu partido não tiveram acesso a todos os locais de votação (mais de 40% dos colégios da capital ficaram sem observadores).
Mousavi afirmou que o resultado põe em perigo os pilares da República Islâmica e leva o Irã em direção à tirania e que chegou a receber um telefonema da comissão eleitoral, informando que ele é que havia vencido, mas menos de uma hora depois, divulgava que Ahmadinejad aparecia na frente. Os partidários da oposição também estranharam a rapidez da apuração, ainda mais levando em conta o alto comparecimento ,de 85%. Há ainda informações, ainda não confirmadas, de que o candidato derrotado Mir Houssein Mousavi teria sido preso a caminho da casa do líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei.
Em Israel, o ministro das relações exteriores, o ultranacionalista Avigdor Lieberman, disse que, agora, o mundo tem que encontrar um jeito de parar a corrida iraniana pela fabricação de armas nucleares.
Quanto aos mais otimistas nos EUA: "Por causa da pressão pública, pode ser que Ahmadinejad queira reduzir o isolamento do Irã", disse um oficial sênior "Isso também pode fazer com que o engajamento aconteça mais rapidamente","No fim das contas, existe uma necessidade de estabelecer o diálogo" e "Com certeza daríamos tempo a eles, desde que eles não se apropriassem desse tempo dando continuidade a seu programa nuclear."
Quem foi a favor
Para o líder supremo do país, o aiatolá Ali Khamenei, não há dúvidas: Ahmadinejad é o vencedor. Pediu a população para que se una em torno de Ahmadinejad, disse que o resultado foi um "julgamento divino", elogiou a alta participaço nos votos deeu ordens para que os opositores acatassem o resultado.
Ahmadinejad rejeitou as acusações de fraude, agradeceu os eleitores por terem dado a ele uma "grande vitória" e disse que as eleições foram "completamente livres" e que o povo quer justiça, desenvolvimento, o fim da corrupção e que o nome de seu país seja respeitado.