Há 80 anos e seis dias, Wall Street era um caos. Ações das maiores empresas norte-americanas despecando por minuto, bilhões de dólares evaporados, ricos de repente falidos. Alguns se jogavam pela janela, mas o modo mais usado para o suicídio foi o asfixiamento com gás. O prefeito de NY, Jimmy Walker, pedia ao cinemas que passassem filmes otimistas, mas não adiantou muito. Era a crise de 1929, que simplesmente abalaria o mundo todo.
Antecedentes
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Antes da 1 Guerra Mundial, EUA era o maior devedor; depois, passou a ser o maior credor de dinheiro.
Altos índices de produção e consumo - 1/6 dos americanos tinham carro (na Europa era um carro para 84 pessoas).
Entre 1889 e 1927, subiu em 780% produção de aço e 562% a de máquinas.
O crescente salário dos operários era mais do dobro dos da Europa.
Especulação de ações e lucro fácil - impulsionado pelo bull market ("feira de touros"), a corrida por ações.
Em 1928, a ação da General Electric subiu de 129 para 396 dólares.
Detalhe cômico: na febre, centenas de pessoas compraram ações da Seabord Air em 29, crentes que era uma companhia aérea - era na verdade um empresa ferroviária.
Também havia a corrida imobiliária para a Flórida, mais quente e com vantagens na compra: pagava-se apenas 10% do valor e o resto depois com os lucros dos anos seguintes, já que em pouco tempos o imóvel valia cem vezes mais. O problema era quando o terreno era um pântano ou não existia mesmo, mas mesmo assim a população na Flórida duplicou.
No resto do mundo,em particular a Europa, a situação era bem diferente: saía muito dinheiro desses países, para o pagamento dos empréstimos da Primeira Guerra. Então o Reichsbank da Alemanha aumentava os juros, para tentar estancar a enxurrada que saía, mas isso elevava o valor do dinheiro, o que dificultava empréstimos produtivos para investimentos internos. Naada bem.
Crise
O ano mais negro da história econômica dos EUA. Resultado da especulação que havia ofuscado os bancos com os juros que os sustentavam, do dinheiro fácil que não tinha bases sólidas e a febre incontrolável por mais. Assim, os bancos, receosos, aumentavam os juros, dificultando a realização de empréstimos, o que diminuía o número de ações negociadas e fazia seus valores caírem.
De início, os grandes bancos compraram papéis a preços artificialmente altos, para dar ânimo aos investidores (incluindo os de fundos populares). Na real, isso já tinha acontecido em março de 29, mas em outubro ficou insustentável. Na quinta-feira negra os pequenos clientes afundaram. Daí muitos ainda achavam que a mão invisível da economia livraria os superbanqueiros de todo o mal, mas eis que na terça-feira negra, os grandes investidores levaram um singelo "susto".
Depois
Um mês depois da dita cuja, as ações da Bolsa de NY tinham caído 40%.
Em 1932, 40 bancos faliam por dia, as fábricas em baixíssima operação (a produção das siderúrgicas caíra 88%), 1/4 do país estava desempregado (o que no ano seguinte representaria 13,5 milhões de pessoas). O salário médio do trabalhador industrial estava reduzido pela metade e um milhão de pessoas vagava de cidade em cidade procurando o que fazer. Aí Al Capone fazia a festa e distribuía sopão para elevar sua popularidade. Além disso, era a maior taxa de divórcios da história.
No campo
A menor capacidade de consumo das cidades fazia cair o preço dos alimentos, fazendo com que bilhões de dólares dos fazendeiros sumissem e os caponeses ficassem ainda mais pobres. Apesar disso, toneladas de cereais apodreciam no campo enquanto várias famílias sofriam com a fome. Tinha gente até queimando sementes, já que eram mais baratas que combustível. Para piorar, três secas, em 30, 34 e 36. Por isso vários fazendeiros, os chamados okies, rumavam para o Meio Oeste, para fugir da terrível crise.
Pobres
Antes mesmo da crise, mas no ano em questão, 90% da riqueza do país estava concentrada em 13% da população e o número de milionários era seis vezes maior que os 7 mil de 1914, sendo que um quinto do povo vivia com menos de mil dólares ao ano (teoricamente o decente seriam dois). Cortiços abundavam nas cidades, não havia previdência social (a Alemanha já tinha em 1891) nem salário-desemprego (já na Inglaterra...).
Mundo
Passaram a não importar tanto, já que não tinham tanto dólar para tal - sem contar as medidas protecionistas que muitos adotaram para frear ainda mais a importação. Consequentemente, o comércio mundial caiu pela metade. Além disso, os que emprestavam dinheiro quiseram tudo de volta e na hora, pegando os outros de surpresa. Daí caía ainda mais a produção industrial e aumentava o número de desempregados - nos anos 30, 40% do mundo!
Dentro dos países, a situação era triste: a Inglaterra cortou gastos públicos (ou seja, além de todos terem que pagar indiretamente pela crise surgida em outro país, ainda tinham que sofrer com as medidas de combate).
Mas quem mais rodou foi a Alemanha, que já tinha que pagar as indenizações impostas depois da Primeira Guerra e que em 1923 tinha perdido a área do Reno-Ruhr (mais industrializada) para a França e Bélgica. E mesmo sem a crise, os alemães sofriam com a ironia do ciclo do dinheiro: pagavam indenizações para aqueles dois países, que pediam empréstimos aos EUA para sua reconstrução, e esse por fim emprestava com altos juros para a Alemanha, que tentava pagar o que devia. Esse clima de depressão fazia cair a a confiança e apoio popular ao governo de esquerda da então República de Weimar (instaurada depois da 1 GM) e crescer o radicalismo, como os comunistas e um pequeno e singelo grupo de nacional socialistas. A Alemanha pede em 31 moratória (adiamento) de um ano da dívida, mas nunca mais paga, pois em 33 torna-se chanceler o líder daquele pequeno grupo (o do bigodinho, lembra?), que se destacou devido a conflitos entre os outros, que disputavam o poder. E se dá bem no seu cargo, tanto é que em um ano depois que assumiu, o desemprego caiu de 6 para 3 milhões de alemães. Não havia uma hora melhor para Hitler tomar as rédeas do movimento nazista.
Ninguém tinha percebido a crise vindo?
Actually, sim. O Fed (Banco Central dos EUA) havia publicado meses antes um documento em que alertava para os problemas que o crédito por empréstimo especulativo exagerado poderia acarretar. E a Associação Nacional de Indústrias já dizia que a produção no país estava de 15 a 30% mais alta que a capacidade de consumo(incluindo mercado externo) e que 40% das fábricas estava funcionando com prejuízo. Havia também uns indicadores nada positivos: no fim de 1928, o desemprego havia aumentado e afetava já 4 milhões de norte-americanos e em setembro de 29 a produção de aço havia decrescido de 9% em relação ao ano anterior.
Mas quem iria ouvir esses dados deprês se tava tudo uma maravilha? Pois é, poucos. Charles Chaplin, o magnata Bernard Bausch e Al Capone pularam fora. O Kuhn, Loeb e Co., segundo maior banco de investimentos, estava liquidando empréstimos especulativos a bônus em NY, algo que trazia menos lucro, mas mais segurança.
Quem deveria ter prestado mais atenção era o presidente da época que tomara posse no ano em questão, Herbert Hoover, e o seu antecessor, Calvin Coolidge, ambos do partido republicano. Mas, claro, estavam embalado nos dogmas do liberalismo econômico, que pregava a não intervenção do Estado. Assim, a única medida expressiva de Hoover foi a injeção de 175 milhões para obras públicas, uma soma irrisória comparada às dezenas de bilhões de dólares perdidos. E ele não foi só lembrado como quem seguiu essa prática fracassada do capitalismo, mas também pelas favelas de órfãos da crise, as chamadas Hoovervilles.
A salvação
"A única coisa a temer é o prórpio medo" - Franklin Delano Roosevelt
Esse carinha aí em cima, vulgo FDR, simples e literalmente salvou a pátria. Tinha sido derrotado para vice-presidente em 1920, mas oito anos depois conseguiu o governo do Estado de NY. Lá investiu em obras públicas com ampliação do emprego, estímulo econômico, aumento de serviços públicos, melhorou as condições de trabalho e fez um plano de auxílio estatal para idosos e deficientes. Se aí ele já parece o cara, saca só:
Ao receber o presente grego da crise em 1933, o trigésimo segundo presidente americano, democrata, implantou o New Deal (quem deu as bases teóricas foi Lorde Keynes, anticomunista e crítico do ultraliberalismo), em que:
- reativava a atividade econômica privada com estímulos do Estado (intervencionaismo estatal), planejamento e política de investimentos públicos;
- detinha autoridade sobre bancos privados (para eles não fazerem a festa);
- pedia pelo rádio para que os cidadãos não sacassem suas econimias dos bancos (só pioraria a situação);
- inaugurava os projetos alfabéticos (instituições estatais).
Dentre elas, estavam a Adm. Nac. de Recuperação, que destinava 4 bilhões para obras públicas e empregos; a Adm. de Ajuste na Agricultura, que que estimulava os fazendeiros a produzir menos (era uma crise de superprodução, né?) e mata porcos para dar aos pobres; e a Corporação de Construção Civil, que empregava jovens para trabalhar contra a erosão do solo e incêndios em florestas.
Também havia a Lei de Reconstrução Industrial, que suspendia inicialmente as normas antitruste para reativar a produção industrial (estabelecia cotas de produção para diminuir a concorrência) e o Ato de Segurança Social, que era o começo de um seguro-velhice para mais de 65 anos.
Além disso, definiu um limite de garantia oficial para depósitos bancários (= mais tranquilidade e menos corrida aosn bancos), abriu linhas de crédito para pagar hipotecas, financiava peças de teatro e acabava com a proibição de fabricação e consumo de álcool (a Lei Seca deles, que tinha enriquecido Al Capone) [tem mais um negócio sobre padrão-ouro que nunca entendi, se alguém souber...].
Os do contra
Olha que coisa, como ele incentivava obras públicas, construiu a represa e a hidrelétrica de Tennessee. Assim, ao ter mais oferta de energia elétrica, barateava-a também, o que irritava bambambans como J.P.Morgan, que tinha o controle de um quarto da produção de hidrelétricas até então.
E Henry Ford também não gostou e foi contra o plano. Na verdade, os ricos em geral desconfiavam do governo e os altos déficits que esses gastos gerariam - quem pagaria esses investimentos? Dinheiro seria desviado deles? Pois é.
Palmas
Mesmo com todo o New Deal, a dívida interna dos EUA ainda era 2/3 da UK, o salário médio nas cidades subiu 65%, aumentou a renda do milho no campo e favelas/cortiços foram praticamente eliminados (reduzindo assim crime e gastos com médicos e policiais).
Reeleição
Mesmo com o partido divido - uns diziam que ele era socialista - conseguiu se reeleger.
Segunda fase
Em 1938, inaugurou a Lei do Trabalho Justo (definindo salário mínimo e jornada máxima), proibiu o trabalho de menores de 16 anos (a não ser no campo) . Revive as leis antitruste, que não eram mais tão necessárias, e concedeu mais liberdade sindical, e os sindicatos aumentaram em número (antes era bem reprimidos, contrariando o liberalismo que adotava e praticado na Europa).
Apesar disso, teve gente que não gostou daquelas concessões trabalhistas - o setor de fumo boicotou o salário mínimo ao fechar fábricas - e da posição antitruste. Na Suprema Corte FDR enfrentou oposição, já que havia muito republicano, que acabaram por declarar a AAA inconstitucional e vencer as eleições legislativas de 38.
Daí FDR rebatia com uma parábola, ao dizer que num história um homem havia salvado o outro de uma enchente, mas depois o que teve sua vida salva reclamava do outro não ter salvado também sua cartola.
Terceira Fase
De 36 a 40, foi o chamado Estado de bem estar social (welfare state), com leis trabalhistas, pensões, novos juízes e tal.
Mundo
A crise tirou os EUA do pódio de salvador mundial depois da Guerra e abalou relações econômicas e diplomáticas.
Cada país por sí, cada um adotava medidas diferentes - reformistas (sem mexer na estrutura) ou revolucionários (mudança total) - mas em geral vindos do Estado. Algumas divergências imprediam progressos na recuperação econômica (a França sofreu os efeitos da crise até a invasão alemã em 1940).
FDR - ao contrário do outro Roosevelt, o Theodore (que tinha forçado a independência da COlômbia em 1904 para se apossar do Canal do Panamá - adotou uma política de boa vizinhança. Por isso nada fez quando Lázaro Cárdenas nacionalizou em 30 as compoanhias de exploração de petróleo.
Na Alemanha, Hitler fez seu próprio "New Deal": buscava a reconstrução econômica, mas conectada ao reerguimento político e militar (suspendeu o pagamento de indenização, aumentou os transportes, casas populares, saneamento e indústria militar).
Por fim, a contradição
Foi justo a Segunda Guerra Mundial, com raízes na profunda crise de 29 e o modo como cada país lidou com ela, que garantiu aos EUA sua volta e de vez a potência mundial. E, mesmo com todo o acontecimento, 80 anos depois, muito daquilo se repetiria - ou alguém acha que as semelhanças são meras coincidências?
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