23.10.09

O berço no chifre dentro do inferno


Pense em um etíope.
Infeliz e provavelmente, você pensou em uma criança abominavelmente raquítica, com barriga inchada e o ambiente desolador de savana. O pior de tudo é que você tem razão, considerando a metade dos 83 milhões de habitantes que sofrem de subnutrição crônica. Ou ainda as quase 80 mil crianças com menos de 5 anos com desnutrição aguda. E por fim, os 6,2 milhões de etíopes em situação de risco para os quais o ministro da Agricultura apelou ontem por uma ajuda alimentar internacional e emergencial de 159 mil toneladas, no valor de US$ 121 milhões .

Fatos


A Etiópia, o país dos "caras queimadas" (os europeus antigos que falavam o grego chamavam a todos os países onde moravam negros de "Etiópia"), situa-se no Chifre da África, ao lado da Somália, Eritréia, Sudão e Quênia. Foi lá onde o café surgiu, e onde pesquisadores recentemente encontraram o mais antigo ancestral humano, o Ardi, 1 milhão de anos mais velho que Lucy, a dita vovó de todos nós (conclusão: em vez de sugerir que os seres humanos evoluíram de uma criatura similar ao chimpanzé, a nova descoberta fornece evidências de que os chimpanzés e os humanos evoluíram de um ancestral comum, há muito tempo. Cada espécie, porém, tomou caminhos distintos na linha evolutiva.)


O país tem uns nomes estranhos, tipo a capital Addis Ababa ou a lingua oficial amárico. E uns números tristes, como o IDH de 0,414, a esperança de vida menor que 60 anos, a mortalidade infantil de 92 mortes por 1000 nascimentos ou a alfabetização de 42%. Na época do neocolonialismo do séc. XX, foi invadida pela Itália em 1936 e libertou-se 5 anos depois; e agora é uma república federal parlamentarista.


Problemas


A origem da crise na Etiópia vai além da seca (inclusive foi por causa de uma prolongada que foi realizada uma reunião de doação e o pedido acima foi feito). É em parte resultado das políticas desenvolvidas com o objetivo de manter os agricultores no campo, que são prejudicados pois:

1. As terras para a agricultura na Etiópia pertencem ao Estado e não podem ser vendidas, então as terras são passadas de geração para geração, divididas e sub-divididas diversas vezes.

2. Muitas dessas terras são tão pequenas, e o solo tão superutilizado, que elas não conseguem produzir o suficiente para alimentar as famílias que as cultivam, mesmo quando chove o suficiente.

3.O governo se recusa a permitir que as terras sejam vendidas para evitar um fluxo de agricultores para as cidades - já que apenas 17% dos 80 milhões de etíopes vivem em áreas urbanas - e assim evitar uma grande taxa de desemprego urbano e a instabilidade social.

Outros fatores são:
- fechamento da fronteira com a Eritreia, o que prejudica o fluxo normal de comércio;

- o rápido crescimento populacional prejudica a capacidade de alimentar sua população (que já é a segunda maior da África, atrás apenas da Nigéria);

- conflitos em várias áreas reduziram a produção agrícola.


Solução (?)


É necessário que os países enfoquem no auxílio a comunidades de modo a prepará-los para lidar com desastres, ao invés de enviar ajuda emergencial. Ao menos é isso que a Oxfam (Comitê de Oxford de Combate à Fome) disse em seu relatório, que marca o 25º ano da crise humanitária no país."... enviar auxílio em comida sem dúvida salva vidas, mas a predominância dessa abordagem fracassa em oferecer soluções de longo prazo que romperiam com essas crises cíclicas e crônicas"

Faz todo o sentido, afinal, as estratégias de longo prazo recebem menos que 1% do auxílio internacional
Os Estados Unidos já mandaram US$ 3,2 bilhões à Etiópia desde 1991. No entanto, segundo a Oxfam, 94% desse total chegou em forma de mantimentos, diminuindo investimento na produção local.

História


1973. 250 mil pessoas morrem de fome. O imperador Hailé Selassié, temendo desestimular o turismo, não recorre à ajuda internacional. Em 1974, em meio ao caos económico e a acusações de corrupção, Hailé Selassié é derrubado e sucedido três anos mais tarde pelo coronel Mengistu.


O novo governo, apoiado pelos soviéticos, enfrenta guerrilhas nas províncias de Eritréia e Tigre. No leste, explode também uma guerra com a Somália, que reivindica a província de Ogaden. Milhares de pessoas são forçadas a se retirar. Vêm para estes acampamentos juntar-se às vítimas da seca endémica causada pelo desflorestamento e pela erosão do solo. Embora seja possível a perfuração de poços de água, os etíopes ainda não possuem os meios para isso. As fontes subterrâneas de água continuam inexploradas pelos fazendeiros mal equipados.


O transporte de alimento é um problema ainda maior. Um DC-3 de 42 anos é a ligação vital entre os refugiados e Adis Abeba, a capital. Shimelis Adougna é uma das pessoas responsáveis pelo socorro de emergência na Etiópia. Ele diz: "Estamos a viver uma situação de emergência muito séria na Etiópia. Das quatorze províncias, nove foram atingidas pela seca. Cerca de cinco milhões de pessoas estão expostas ao perigo da fome. Nossos esforços são feitos no sentido de atrair a atenção internacional e assistência. A resposta não tem correspondido às nossas expectativas e não chega nem de perto de suprir as necessidades..."


A guerra é o maior obstáculo para resolver o problema da fome. Para combater os guerrilheiros, o governo gasta mais de um milhão e meio de dólares comprando armas dos soviéticos. Tal procedimento não ajuda a encorajar a assistência do Ocidente, que teme ver o seu dinheiro convertido em munição. Por outro lado, os guerrilheiros de Tigre e Eritréia destróem grandes quantidades de alimentos enviados pela comunidade internacional porque, como dizem, os estoques foram transportados com a ajuda do governo.


O coronel Mengistu tenta resolver o problema deportando seiscentas mil famílias das regiões montanhosas do norte para o sul, cerca de três milhões de pessoas. Milhares delas morrem no caminho; outras não conseguem se adaptar ao novo clima e modo de vida.
O regime arcaico de Hailé Selassié durou 44 anos. O governo de Mengistu chega ao fim em 1991, após quatorze anos de ditadura. Ainda que a paz se aproxime da Etiópia, será difícil recuperar o tempo perdido em uma das mais longas guerras da África moderna. Durante anos, o desenvolvimento foi relegado ao segundo plano em favor da luta pelo poder político. Nesse período, o deserto continua o seu avanço inexorável, com milhões de etíopes vivendo um inferno na Terra.

Quem diria que o país de origem de cada Homo Sapiens que habita o planeta hoje é raiz de tantos problemas, muitos dos quais apenas jogado lá, descaradamente.

G1, Estadão, Portal das Curiosidades

20.10.09

Com a foice na mão

Para quem pensava que a crise afetava só indústrias, Bolsas e PIBs, atenção! Um estudo norteamericano provou, sem melosamente apelar para o direito à vida, por que agora, mais do que nunca, é necessário abolir a pena de morte.

Se isso é desconcertante, os números-argumento do estudo são ainda mais: o governo dos EUA poderia economizar - pasmem - US$ 25 milhões por criminoso executado! O Centro de Informação da Pena de Morte chegou a essa conclusão em relatório publicado hoje e defende que a pena não só é um desperdício, como também não é garantia de redução da criminalidade.

Quanto ao dinheiro, o valor ultrapassaria o acima, chegando até 100 milhões, ao se considerar os vários anos de processo na justiça e os atuais 3297 presos na fila de espera. A Califórnia, por exemplo, gasta US$137 milhões por ano com isso e não realizou uma execução em quase quatro anos. E US$ 250 milhões do condado de West Orange já foram ralo abaixo sem trazer resultados positivos.

Apesar disso, 65% dos norteamericanos apoiam a sentença para punir os criminosos mais perigosos; tanto é que em 35 dos 50 Estados a pena é legalizada.

Por outro lado, o índice caiu bastante desde 1976, quando era de 80%, e apenas 12 Estados fazem uso frequente da lei. Onze outros reconsideraram-na este ano, principalmente por causa do - tcharam! - alto custo da implementação. O Novo México deu tchau à pena em março, o Colorado chegou perto e New Hampshire a suspendeu por um mês para economizar. Por fim, a taxa de assassinatos caiu em Nova Jersey após a abolição ano retrasado.

*A pena de morte foi restabelecida pela Corte Suprema dos EUA em 1976 e desde então foram executados 1.176 condenados, 441 deles no estado do Texas.

Detalhe: quem dera se essa pesquisa tivesse sido exposta ano passado, quando o número de presos executados foi o dobro do em 2007: 2390, além de outros 8864 condenadas em 52 países. E adivinhem onde foi a maioria: na China (mas isso já merece outro post).

HA! E no meio dessa história toda, o acusado de estupro e assassinato Romell Broom realizou a façanha de, 25 anos após o crime, conseguir sobreviver a 18 injeções letais! Isso porque os médicos não conseguiam achar a veia, daí pega o outro braço, tenta a perna, e depois de 29 minutos desistem. Agora o problema é o que fazer com o cara, que ou vai de novo para a execução, ou segue para a prisão perpétua ou, por esforço dos advogados, é libertado - afinal, a Constituição foi violada, uma vez que a morte, que era para ser rápida e indolor, foi transformada em uma sessão de tortura (sem contar que a Suprema Corte tinha concluído recentemente, por sete votos a dois, que a injeção letal é uma forma humana de se matar um criminoso). Broom não foi único a sobreviver: em 1946, um assassino de 17 anos resistiu a um choque de 2,5 mil volts na cadeira elétrica - e só foi morto um ano depois.

G1, Último Segundo, Fantástico

4.10.09

Malcheirosa e curiosa

Atire a primeira pedra quem alguma vez olhou detidamente a nota de um real que recebe de troco, ou teve a curiosidade de saber que aquela mulher com coroa de louros é Marianne, o símbolo da República e criada na Revolução Francesa, que só se tornou estampa das nossas cédulas porque em 1994, depois de 5 moedas e 10 anos, o estoque de homenageados já tinha se esgotado.

Enfim, não que eu passe o dia com a lupa examinado uma nota malcheirosa, tenho o costume de colecionar as de outros países. Qual não foi, portanto, a minha surpresa quando recebi uma da Malásia, país onde nasci e para onde meu pai viajou a trabalho. Bem grande e gordo na nota de 1 ringgit estava:

US GENERAL GEORGE WASHINGTON IS ALIVE

"Que estranho", pensei. Virei a nota e, olhe só:

IN YEAR 2056 THE U.S. MILITARY VAULT AT 725 - 23 RD. ST. WASH. DC OPENS

Pois é, não é todo dia que se encontra uma coisa dessas. De início, pensei na "vault", um tipo de cofre, e lembrei daqueles programas de tv em que as pessoas juntam várias coisas da sua época para serem abertas no futuro. Será?

Então pensei: Just Google it! E o resultado, meus amigos, está aqui: (isto é, numa pesquisa porca e rápida).

A minha pergunta, então, fica: WHAT THE HELL uma coisa dessas tava numa nota da de menor valor de um país do outro lado do mundo que quase ninguém sabe onde é?